Vitrectomia: o que é, quando é indicada e o que esperar da cirurgia e da recuperação

Receber a indicação de uma vitrectomia pode ser assustador — especialmente quando se tem pouca informação sobre o que é o procedimento, por que foi recomendado e o que vai acontecer depois. O medo do desconhecido é, em muitos casos, maior do que o procedimento em si.

Este guia foi escrito para preencher esse vazio. Aqui você vai entender o que é a vitrectomia, para quais condições ela é indicada, como o procedimento é realizado, o que esperar da recuperação e quais perguntas fazer ao seu médico antes de decidir. Com informação clara, a decisão fica mais fácil — e a ansiedade, menor.

O que é o vítreo — e por que ele precisa ser removido?

Para entender a vitrectomia, é preciso primeiro entender o que é o vítreo. Trata-se de um gel transparente que preenche aproximadamente 80% do volume do olho — o espaço entre o cristalino (lente natural do olho) e a retina. No olho jovem, o vítreo é firme e bem aderido à retina. Com o envelhecimento ou em determinadas condições, ele se liquefaz e pode se descolar de forma irregular, gerando tração sobre a retina.

Em situações normais, o vítreo não precisa ser removido. Mas quando ele é o responsável por trações, sangramentos, infecções ou quando é necessário acessar a retina para tratar alguma condição, a remoção cirúrgica — a vitrectomia — torna-se necessária.

A boa notícia é que o olho funciona perfeitamente sem o vítreo. Após a cirurgia, o espaço é preenchido com soro fisiológico, gás ou óleo de silicone — conforme a necessidade clínica — e o olho adapta-se completamente.

O que é a vitrectomia?

A vitrectomia — tecnicamente chamada de vitrectomia posterior via pars plana (VVPP) — é uma cirurgia ocular realizada sob microscópio que consiste na remoção total ou parcial do vítreo e no tratamento de condições da retina que não podem ser abordadas por métodos menos invasivos.

É um dos procedimentos mais complexos da oftalmologia — e um dos que mais evoluiu nas últimas décadas. A vitrectomia moderna utiliza instrumentos de calibre microscópico (25 ou 27 gauge, equivalentes a frações de milímetro), o que permite realizar microincisões sem necessidade de pontos na grande maioria dos casos.

O procedimento é realizado em centro cirúrgico especializado, com anestesia local ou geral conforme a indicação, e dura em média de 1 a 3 horas dependendo da complexidade do caso.

Para quais condições a vitrectomia é indicada?

A vitrectomia é indicada para tratar diversas condições que afetam o vítreo e a retina. Conhecer as principais ajuda a entender por que o procedimento foi recomendado no seu caso específico.

Descolamento de retina

É uma das indicações mais urgentes de vitrectomia. Quando a retina se separa da camada que a nutre, as células começam a morrer rapidamente — e o tempo entre o diagnóstico e a cirurgia determina diretamente o resultado visual. Na vitrectomia para descolamento, o cirurgião remove o vítreo, drena o líquido que se acumulou entre a retina e a parede do olho, reaproxima a retina e utiliza laser ou crioterapia para fixá-la. Um tamponador (gás ou óleo de silicone) é injetado para manter a retina no lugar durante a cicatrização.

Buraco macular

O buraco macular é uma abertura na região central da retina (a mácula), causada pela tração do vítreo durante o descolamento posterior. Compromete a visão de detalhes, leitura e reconhecimento de rostos. A vitrectomia remove o vítreo e a membrana limitante interna — uma fina camada sobre a mácula — aliviando a tração e permitindo que o buraco se feche naturalmente. O sucesso cirúrgico é alto quando o buraco é tratado nas fases iniciais.

Membrana epirretiniana

Também chamada de pucker macular, é uma fina camada de tecido cicatricial que se forma sobre a superfície da mácula. Ao se contrair, distorce a retina e causa visão deformada — como se as linhas retas ficassem onduladas. A vitrectomia remove essa membrana, aliviando a distorção. Casos leves podem ser monitorados; quando comprometem significativamente a qualidade de vida, a cirurgia é indicada.

Hemorragia vítrea

O sangramento dentro do olho — causado por retinopatia diabética, rotura de vasos ou trauma — preenche o vítreo com sangue, bloqueando a visão. Quando o sangue não se reabsorve espontaneamente em um prazo razoável, a vitrectomia remove o vítreo hemorrágico, restaura a visão e permite tratar a causa do sangramento.

Retinopatia diabética proliferativa

Nos estágios avançados da retinopatia diabética, vasos anormais crescem sobre a retina e o vítreo, formando membranas de tração que podem descolá-la. A vitrectomia remove essas membranas e o vítreo comprometido, tratando o descolamento tracional e prevenindo novas complicações.

Outras indicações

— Trauma ocular com corpo estranho intraocular ou comprometimento da retina

— Endoftalmite — infecção grave dentro do olho que requer limpeza cirúrgica

— Luxação de lente intraocular — quando uma lente implantada se desloca para o vítreo

— Complicações cirúrgicas — como catarata caída no vítreo durante cirurgia

Como é realizada a vitrectomia?

Entender o passo a passo do procedimento ajuda a reduzir a ansiedade pré-operatória. Veja como acontece:

Antes da cirurgia

O paciente realiza exames pré-operatórios para avaliar sua condição clínica geral. É necessário jejum. No dia da cirurgia, o paciente chega ao centro cirúrgico com antecedência, recebe o preparo do olho (colírios para dilatar a pupila e higienização) e é posicionado na sala de operação.

Anestesia

A maioria das vitrectomias é realizada sob anestesia local com sedação — o paciente fica confortável e sem dor, mas não dorme profundamente. Em casos específicos (pacientes muito ansiosos, crianças ou procedimentos muito prolongados), a anestesia geral pode ser preferida.

O procedimento

Três microincisões são feitas na esclera — a parte branca do olho — através das quais são introduzidos os instrumentos: um iluminador de fibra óptica, uma sonda de vitrectomia e um sistema de infusão. O cirurgião opera sob magnificação microscópica, com visibilidade completa do interior do olho.

A sonda de vitrectomia corta e aspira o gel vítreo simultaneamente, enquanto o sistema de infusão mantém a pressão intraocular estável. Com o vítreo removido, o cirurgião acessa a retina e realiza as manobras necessárias: remoção de membranas, aplicação de laser, drenagem de líquido, reaproximação da retina.

Ao final, dependendo da condição tratada, o olho é preenchido com:

— Solução salina balanceada (BSS) — quando não há necessidade de tamponamento

— Gás (SF6 ou C3F8) — que se reabsorve espontaneamente em semanas; exige posicionamento específico da cabeça

— Óleo de silicone — para casos complexos; geralmente retirado em uma segunda cirurgia após cicatrização

Após o procedimento

O paciente fica em observação por algumas horas e recebe alta no mesmo dia ou, em casos mais complexos, após uma noite de internação. As instruções de cuidado pós-operatório são fornecidas detalhadamente pelo cirurgião.

Como é a recuperação da vitrectomia?

A recuperação varia significativamente conforme a condição tratada e o tipo de tamponamento utilizado. Algumas orientações gerais:

Quando gás é usado como tamponador

Esse é o aspecto da recuperação que mais gera dúvidas — e ansiedade. O gás injetado no olho serve para pressionar a retina contra a parede do olho enquanto a cicatrização acontece. Para funcionar corretamente, é necessário manter o olho na posição em que o gás fica em contato com a área tratada.

A posição varia conforme o caso — pode ser de bruços, de lado ou com a cabeça inclinada — e precisa ser mantida por períodos que variam de alguns dias a algumas semanas. É uma das partes mais desafiadoras da recuperação, mas é fundamental para o resultado.

Enquanto o gás está no olho, a visão é turva ou praticamente ausente — o que é esperado e temporário. À medida que o gás é absorvido (em semanas), a visão vai se recuperando progressivamente.

Uma restrição importante: pacientes com gás no olho não podem viajar de avião. A altitude provoca expansão do gás, o que pode causar pressão intraocular perigosamente elevada.

Quando óleo de silicone é usado

O óleo de silicone é utilizado em casos mais complexos — como descolamentos muito extensos ou recidivantes. Diferente do gás, ele não é absorvido espontaneamente e precisa ser removido em uma segunda cirurgia, geralmente após 3 a 6 meses. A visão com óleo no olho é turva, mas presente.

Cuidados gerais no pós-operatório

— Uso regular de colírios antibióticos e anti-inflamatórios conforme prescrição

— Evitar esfregar o olho ou fazer pressão sobre ele

— Evitar piscinas, mar e ambientes com muita poeira

— Restrição de atividades físicas intensas nas primeiras semanas

— Consultas de retorno frequentes nas primeiras semanas para monitorar a recuperação

— Contato imediato com o médico em caso de dor intensa, perda súbita de visão ou aumento de vermelhidão

Quais são os riscos da vitrectomia?

A vitrectomia é uma cirurgia segura quando realizada por cirurgiões experientes em centros especializados. No entanto, como todo procedimento cirúrgico, carrega riscos que é importante conhecer:

— Catarata — é a complicação mais comum após vitrectomia em pacientes que ainda têm o cristalino natural; tende a se desenvolver nos meses seguintes e é tratada com cirurgia de catarata convencional

— Aumento da pressão intraocular — pode ocorrer no pós-operatório, especialmente quando gás é utilizado

— Novo descolamento de retina — risco que varia conforme a condição tratada e a complexidade do caso

— Infecção (endoftalmite) — rara, mas grave; exige tratamento imediato

— Hemorragia — sangramento durante ou após o procedimento

A melhor proteção contra complicações é a escolha de um cirurgião com experiência comprovada em vitrectomia e o seguimento rigoroso das orientações pós-operatórias.

Perguntas frequentes sobre vitrectomia

A vitrectomia dói?

O procedimento é realizado sob anestesia e não causa dor. No pós-operatório imediato, pode haver desconforto, sensação de pressão ou leve dor, controlados com medicação. Dor intensa após a cirurgia é sinal de alerta e deve ser comunicada imediatamente ao médico.

Quanto tempo leva para a visão se recuperar?

Varia muito conforme a condição tratada e o tipo de tamponamento. Em casos simples sem gás, a melhora visual pode começar em dias. Com gás, a recuperação é mais lenta — a visão só se estabiliza após a absorção completa do gás, o que pode levar de semanas a meses.

Posso perder a visão com a vitrectomia?

A vitrectomia é realizada justamente para preservar ou recuperar a visão — não para comprometê-la. No entanto, em casos muito graves, mesmo com a cirurgia, pode não ser possível recuperar toda a visão perdida. O cirurgião deve ser honesto sobre o prognóstico esperado em cada caso específico.

A vitrectomia pode ser repetida?

Sim. Em alguns casos, é necessária mais de uma intervenção — especialmente em descolamentos complexos ou quando ocorre recidiva. O cirurgião avalia cada situação individualmente.

Vou precisar de óculos após a vitrectomia?

A vitrectomia não tem como objetivo corrigir erros refrativos — ela trata condições da retina e do vítreo. Após a recuperação, o paciente pode precisar atualizar a graduação dos óculos conforme a evolução do olho operado.

O que perguntar ao seu médico antes da cirurgia

Antes de consentir com a vitrectomia, é importante obter respostas claras para as seguintes perguntas:

— Por que a vitrectomia é necessária no meu caso — e o que acontece se eu não operar?

— Quais são os objetivos reais da cirurgia — recuperar visão perdida ou impedir que piore mais?

— Qual tamponamento será utilizado e quais as implicações para a recuperação?

— Qual é a experiência do cirurgião com esse tipo específico de caso?

— Onde será realizada a cirurgia e qual a estrutura disponível?

— Quanto tempo levará a recuperação e quais atividades precisarei restringir?

Um bom cirurgião responde a essas perguntas com clareza e paciência — e respeita o tempo do paciente para entender e decidir.

Conclusão

A vitrectomia é um procedimento que, apesar do nome técnico e da complexidade, tem resultados muito positivos na grande maioria dos casos. Ela permite tratar condições que, décadas atrás, levavam inevitavelmente à cegueira — e hoje são abordadas com segurança e eficácia crescentes.

O medo é natural. Mas o medo informado é diferente do medo do desconhecido. Entender o que vai acontecer, por que está sendo indicado e o que esperar de cada etapa transforma a experiência de uma cirurgia inevitável em uma decisão consciente e segura.

Se você recebeu indicação de vitrectomia e ainda tem dúvidas, busque uma conversa franca com o seu cirurgião — ou uma segunda opinião. Você tem o direito de entender completamente antes de decidir.

Dr. Fernando Novelli

Médico Oftalmologista — CRM SC 12289 | RQE 6098

Especialista em Retina e Catarata — Formação pela Universidade de São Paulo (USP)

📍 Joinville — Hospital Sadalla | 📍 Florianópolis — Ekos Saúde Integrativa, Campeche

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. Consulte um oftalmologista de sua confiança.